45. Choque de realidade: Ninguém nasce marginal

Olá leitores! Como vão vocês?! Hoje teremos um papo reto sobre a sociedade que nos cerca sob a ótica de um texto publicado em 14 de maio de 1986, na Revista Veja, página 122, por José Joaquim Calmon de Passos, (1920-2008), o qual leva o título Ninguém nasce marginal. Se fizer um cálculo rápido, perceberá que em 2018 o texto completou 32 anos. Talvez muitos dos nossos leitores nem eram nascidos à época. Ele é anterior à Constituição Federal do Brasil de 1988 e retrata bem o espelho da sociedade brasileira tanto naquele tempo quanto nos dias atuais. Apesar do transcurso do tempo, o texto permanece tão atual quanto no momento em que foi escrito. 

Por falar nisso, curiosamente esse texto sumiu, desapareceu, evaporou do mapa. Você pode procurar na web. Provavelmente ele não está disponível em lugar nenhum além do Sou Poupador. Todavia, se você compartilhar ele com outras pessoas, pedimos a gentileza de citar o SP.

Vamos ao texto para posterior debate a respeito da leitura, nos comentários. Ah, mais uma coisa, você pode até estar se perguntando, mas o Sou Poupador é um blog sobre finanças pessoais e fica trazendo esse tipo de assunto para nós? Pois bem, o tema tem ligação com a área econômica e nosso objetivo, além de falar sobre investimentos, também é "conscientizar as pessoas sobre os benefícios de viver uma vida financeiramente equilibrada, de forma que o dinheiro traga mais alegria e abundância para todos", por isso, trouxemos o artigo de Calmon, ipsis litterisObservação: postagem dedicada ao "novo governo" que se iniciará em 1 de janeiro de 2019 no Brasil.

Aproveitem ao máximo a experiência dessa leitura para tornarem-se pessoas melhores, vamos lá:
J.J. Calmon de Passos, Ninguém Nasce Marginal, Sou Poupador, Finanças Pessoais

Ninguém nasce marginal

J.J. Calmon de Passos

Na imprensa e nas ruas de Salvador, na última semana, publicidade inusitada e chocante exibia o retrato de um menor com uma tarja preta nos olhos, como se costuma fazer na fotografia de delinquentes cuja identificação se pretende obstar. Encimando-a, em letras garrafais, a expressão forte: defeito de fabricação. E logo abaixo se dizia que há criança que nasce para ser artista, outra para advogado ou embaixador e infelizmente existe a que já nasce para marginal. A intenção de quem projetou sem dúvida foi positiva: advertir quanto à necessidade do planejamento familiar. Tanto que conclui de modo feliz: Você tem o direito de ter os filhos que quiser. Você tem o direito de não ter os filhos que não puder.

A intenção foi boa. A realização, desastrosa. Não há ventres malditos de mulheres marcadas para a esterilidade, nem espermatozóides com ou sem qualificação social. A agressão vem de defeitos anatômicos ou de pertubações fisiológicas, que entendem muito pouco do mercado de valores que rotulam os homens socialmente. Defeito de fabricação, provocou-o a talidomida, usada pelas elites, ou os casamentos endogâmicos nas famílias com brasão. Não o ato de amor e desejo que aproxima homem e mulher na realização do ato sexual, que desabrocha numa vida nova. A natureza não fabrica seres. Ela os esculpe, cinzela, burila. Para colocá-los num hosana à vida, que na procriação tem sua expressão mais plena.

O que há de condenável na publicidade em questão é que ela associa o positivo da condição humana ao positivo da condição econômica. 

Maniqueísmo novo: da pobreza sai a maldade, a marginalidade; da riqueza brotam os artistas, os sábios e os santos. Quando, na verdade, o requinte do mal está nos que requintam sua ambição, a ponto de sufocar o que de humano existe neles. Um só chefe de Estado paranóico causa mais vítimas que 1000 delinquentes comuns; e um único colarinho branco, do setor público ou do setor privado, rouba mais, em termos de quantidade, do que todos os gatunos comuns reunidos.

Não menos grave nessa publicidade é o que blandiciosamente diz, com requinte de maldade, talvez inconsciente: o Brasil tem 30 milhões de deficientes físicos que podem gerar filhos também deficientes. E os alicia para o nirvana da esterilidade, ainda que o faça por vias sinuosas do convite à orientação, educação e assistência médica sexual. Viva nossa Esparta! Só resta saber onde fica a rocha de Tarpéia... De uma coisa estamos certos: não fica à vista. Porque não se assume hoje, abertamente, a responsabilidade pelos reais valores que defendemos. Na Grécia de ontem sem hipocrisias sacrificava-se a vida em favor da força porque Esparta queria apenas soldados. Hoje, não se confessa que a vida é sacrificada em favor da riqueza, pois a nossa Esparta não pode renunciar a suas delícias e quer preservar os seus insaciáveis favorecidos.

Igualmente inaceitável, na campanha malsinada, é que ela desloca para os pais uma responsabilidade que é social, de todos nós, principalmente dos mais bem aquinhoados na desigual partilha de bens que a vida proporciona.

Ninguém nasce marginal. A sociedade é que fabrica os marginais que merece, negando aos que chegam à vida educação, teto, alimento e trabalho. É ela que desfigura a condição humana, ferreteando-a com o estigma da desnutrição e da ignorância.

Lembro-me de uma passagem de Terra dos Homens, esse belo cântico de louvor à espécia humana. Nele, Saint-Exupéry nos fala de sua experiência em um vagão de terceira classe, num trem repleto de operários poloneses, mandados de volta da França, onde serviam. Descreve o semblante feio e embrutecido dos pais, rostos encavados, com buracos de sobra e saliências de ossos, mortos de fadiga, semelhando montes de barro, ou esses embrulhos sem forma que se deixam ficar, à noite, nas bancas dos mercados. E Saint-Exupéry lembra que esses homens já foram belos, belos como uma criança que divisa entre eles. O autor se indaga por que o animal, ao envelhecer, conserva a sua graça, enquanto a bela argila humana assim se deteriora tão tragicamente. Por que estranho molde passaram essas criaturas? A que terrível máquina de tortura foram submetidas? E conclui, pungente, dizendo que era menos aquela miséria que os atingia - ela seria remediável com alguma pouca sopa e algum vestuário. O pior era verem em cada criança marginalizada um Mozart assassinado.

O problema do planejamento familiar é preocupação fundamental. O homem, como ser inteligente livre, não existe apenas para sofrer a natureza, submeter-se a ela passivamente. Deve amoldá-la, sem violentá-la, ao projeto humano, que tem por estrela guia um sonho que se projeta, sem tempo determinado, no futuro, mas que compromete o presente para a realização. Por isso mesmo, também as leis da procriação devem ajustar-se aos propósitos culturais do homem. Mas isso deve ocorrer em favor de todos os homens, não em detrimento de muitos para o benefício de poucos. 

O que se mata em cada criança que nasce, o que nela se sufoca do seu rico potencial humano, é o que nos deve preocupar e constranger. Contra isso, cumpre que sejamos todos mobilizados, empresários, comerciantes, industriais, os convidados pela publicidade equivocada. Porque em cada nascimento frustrado para a vida não há defeito de fabricação, e sim assassinato. A publicidade veraz e coerente se dissesse, corajosamente: "Você também é culpado - resgate a sua dívida". 

Dica de leitura do Sou Poupador
Em Terra dos homens, Exupéry relata suas memórias de piloto do correio aéreo francês entre 1926 e 1935, assim como suas primeiras aspirações na profissão e seu convívio com outros pilotos e amigos. Sem um fio narrativo rígido, definido, Exupéry utiliza passagens emocionantes e dramáticas de sua experiência para dar suas impressões sobre o mundo, que se acostumou a ver do alto. É, antes de tudo, um livro sobre a morte, a amizade, o heroísmo e a busca de significado.


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