43. MILHAR SECO de Orígenes Lessa

Olá Poupa'Dores! Hoje queremos homenagear ORÍGENES LESSA, ele é um escritor que viveu entre os anos de 1903 e 1986 e foi membro da Academia Brasileira de Letras - ABL. A ideia é apresentar algum texto do autor para que todos tenham a chance de conhecer o autor e possam prestigiar mais a literatura brasileira. Para essa cumprir com essa tarefa, escolhemos o conto MILHAR SECO.

É uma história bem divertida, que vale a pena ser lida, ela mostra a reação de uma pessoa após ganhar um bom prêmio em dinheiro. Por falar em prêmio, a história nos faz refletir sobre como reagiríamos na mesma situação, ainda mais quando nessa época do ano, no Brasil, se aproxima o sorteio da Mega-Sena da Virada, o que certamente nos faz também imaginar como seria se ganhássemos uma fortuna na loteria.

As escritas de Lessa remontam época e fazem a imaginação criar asas. Deixe-se levar pelo texto e perceba a diferença principalmente das expressões utilizadas naquele tempo. 

Não custa também dizer que o esforço foi grande para disponibilizar esse conteúdo para vocês, uma vez que ele não foi encontrado no formato digital, tendo sido digitado por nós do Sou Poupador, pois entendemos que o autor merece ser conhecido e que o texto possui a pertinência temática para ser incorporado no Sou Poupador.

Nem imaginamos quantos dos leitores teriam acesso a esse tipo de literatura, mas certamente, poucos o encontrariam. Desejamos uma excelente leitura para todos e que esse texto seja compartilhado com muitas pessoas

Divirta-se com a leitura e lembre-se: ao concluí-la, pedimos a gentileza do registro de suas considerações a respeito do texto. Desde já agradecemos. Vamos lá então! Boa leitura!

 MILHAR SECO Por ORÍGENES LESSA

MILHAR SECO

Por ORÍGENES LESSA ipsis litteris

Beppino estava curvado, como desde os dez anos, aos pés de um freguês, velho amigo da casa, disputado por todos os engraxates, porque dava gorjetas até de "destão". No ano anterior, ao receber sobre o joelho o cartãozinho de Boas Festas, passara ao Luigi uma nota de dez bagos. Não era à toa que todo o salão lhe dera título. 
- Vermelha ou marrom, doutor? 
Quando as cadeiras estavam todas ocupadas e ele aparecia, sempre bem-vestido, de camisa de seda e o sapato ainda limpinho e lustrando, todos os engraxates punham-se a trabalhar com fúria, rematando com pressa para apanhar o freguesão de primeira, que arejava muitos orçamentos humildes... 
Aquele dia, o Camisa de Seda coubera ao Beppino. E o Beppino acaraciava-lhe o couro espelhante dos sapatos como quem passa a mão em pele de mulher, louco por puxar prosa com o homem, lá no alto, do outro lado da vida. 
- Já veio o resultado? - perguntou alguém. 
- Deu o cavalo. 
- O quê? - perguntou bruscamente o Beppino. - Qual foi o milhar? 
- Um freguês da ponta esquerda puxou um papelzinho e leu, democraticamente:
- 1.044.
- No primeiro prêmio, doutor? - Perguntou Beppino, como alucinado. 
- No primeiro. 
- Seco? Tô feito! 
E esquecendo o cliente, os olhos arregalados, Beppino correu para o homem. 
- Deixa eu ver a lista doutor... 
Arrancou do bolso imundo o talãozinho, conferiu os números, e voltou-se para o Camisa de Seda:
- Eu já volto, doutor! 
E saiu a correr, ante o espanto de todos, surdo ao chamados do chefe:
- Guaglio! Mamma mia! Dove vae, sévergonha? 
O menino entrou afobado no chalé. O guichê ainda estava fechado. Faltava mais de uma hora para o início dos pagamentos. Nervoso, impaciente, conferindo a cada cinco minutos o talão com os números expostos no quadro-negro, Beppino má podia acreditar que toda aquela fortuna lhe pertencia. Quatro contos. Fizera os cálculos rapidamente, consultara duas ou três pessoas, ali perto, ficara assustado, com temor de algum assalto. 
- Ih! se eles descobrem! 
E a cada minuto palpava o bolso, a procurar o papelucho. Fazia um volume quase imperceptível, mas ainda mais gostoso de acariciar que o sapato do Camisa de Seda. 
Era difícil visualizar aquela idéia. Não era possível! Ele não podia ganhar quatro contos! Aquilo representava a gorgeta de umas mil engraxadas, de anos de trabalho. Tornava a conferir, passeava no salão como fera na jaula. 
- Puxa! Vou comprar um sapato de duzentos "paus"! 
E à idéia do sapato, pensou no salão, onde o Camisa de Seda o esperava. Pensou em voltar. Havia tempo. Mas o temor de se demorar, de ser retido pelo chefe, um napolitano ferro, o receio de, quando pudesse aparecer, encontrar o chalé fechado, precisando esperar até o dia seguinte, com risco de perder ou rasgar o talão da fortuna, e a idéia de que estava rico, deram-lhe coragem. 
- Tó! Vai esperando que eu volto...
E se abrisse, com o dinheiro, um salão? Estava ali uma idéia. Desde que começara a trabalhar, Beppino acalentava o grande sonho. Ter um salão. Com dez engraxates e com espelhos nas paredes, que nem aquele calabrês da Rua 15. Os outros fazendo força. E ele só dirigindo, na caixa. O diabo era ter só quinze anos. Ninguém obedeceria. Ninguém o levaria a sério. 
- Eu vou comprar uma camisa de seda... 
Claro! Só para abafar. Quando eles vissem que Beppino tinha também camisa de seda, eram até capazes de lhe dar o doutor, que em salão de engraxate, de barbeiro, e para chofer, é sempre o título honorífico próprio da classe que paga e dá gorjeta. 
Bateu no guichê. 
- Já tá na hora? 
- Não chateia, menino!
- É que eu tenho quatro contos pra receber... - disse ele. 
- O quê? Não diga! 
O homem adoçou logo o rosto, do outro lado. 
- Na dura! Um dia tem que ser da gente... 
E mostrou o talão. 
- Então vamos entrar na cerveja... - disse o homem, cupidez nos olhos. 
Beppino fechou-se, desconfiado. Mas sentiu que ficaria importante. Percebeu que o dinheiro era a força, o domínio. Tinha o mundo nas mãos. E vendo-se em mangas de camisa, as mãos e os braços negros de graxa, a camisa em frangalhos, a calça de serviço imunda e rota por cima da outra, não menos lamentável, achou que era preciso reformar tudo aquilo, pôr-se todo frajola, libertar-se daqueles andrajos. Ali mesmo, apressado, tirou a calça de serviço, um brinzão listado, comprada feita por seis mil-réis. Atitou-a fora, na sarjeta. Só então reparou que, à frente do chalé, havia também um salão de engraxate. Teve uma idéia. Engraxar o sapato. Tinha no bolso quatro ou cinco mil-réis, saldo das gorjetas dos últimos dias. Estava uma cadeira desocupada. Hesitou, acometido de uma timidez imprevista. Ele nunca fora freguês. Estava ainda maltrapilho. Mas quis provar a grande sensação. Dirigiu-se para a cadeira. O colega olhou-o, com assombro. 
- Ueiô! O quê? 
Beppino sentiu ao mesmo tempo humilhação e raiva. 
- O que há de ser? Engraxada! 
O negrinho hesitou, olhando-lhe o sapato velho, sórdido, multiemendado, boca de jacaré. 
- Uei! Eu não posso perdê tempo! Deixa de fricote! Quer engraxar ou não quer? 
- O preto - ele conhecia de vista aquele sujeitinho besta e beiçudo - apanhou a escova e, com ar de profundo desprezo, começou a limpar-lhe o sapatão. Beppino estava arrependido. Fizera burrada. Mas no dia seguinte havia de voltar, para aquele tiziu ver quem era ele, com um sapato de duzentos, não, trezentos ou mais, daquele que havia na Avenida São João, de meio metro de sola, que o Camisa de Seda costumava calçar. Não disse palavra. Nem reclamou contra o serviço matado, ele que era técnico. Mas, ao pagar, deu-se ao gosto de delirante de jogar, quase na cara do negrinho espantado, como gorjeta, todos os níqueis que trazia, gorjeta como igual ele nunca receberá, a não ser uma vez, numa véspera de Ano-Bom. 

Nem contou o dinheiro. Deu uma "coisa"  Sentia a alma do tamanho do mundo, uma vontade enorme de correr e de rir. Não sabia se devia dar um salto ou se já dera, as mãos negras no ar, como asas espalmadas. Parecia que todos o olhavam. Teve medo que avançassem para roubar-lhe o dinheiro. Correu para a rua. Olhou a calçada cheia de gente com pressa. No seu bolso, dinheiro sem fim. Viu dois braços bonitos. Teve vontade de agarrá-los, com suas mãos negras de graxa, gritando que tinha quatro contos de réis. Que fazer? Ainda nada resolverá. Precisava fazer compras. Vestir-se bem. Eram quase seis horas. O comércio ia fechar. Entrou, como um raio, numa camisaria. 
- Que deseja? 
- Gravatas... Camisas... 
- Coisa barata e boa? 
- Não! Cara! Da melhor! 
- Estás de doze? 
O caixeiro apresentava-lhe umas camisas grosseiras. Beppino recebeu a indicação como um insulto, passou o olhar desvairado pelos mostradores. 
- Aquela.
- Mas aquela é de 120.
- Eu quero aquela. 
- O caixeiro hesitou. 
- Mas... 
- Eu pago! Eu tenho dinheiro - disse, enraivecido e vitorioso. 
E, metendo a mão no bolso, exibiu o maço de notas. Atravessou logo o pensamento do caixeiro desconfiado. 
- Não! Não roubei, não. É meu! 
O caixeiro fez um gesto irônico.
Nova raiva o assaltou. 
- Eu não sou que nem certos sujeitos pesados... Dando duro... Eu ganho sempre... Vamos, que eu tenho pressa. 
Começou a comprar àsccegas. Camisas de seda, gravatas finas, cuecas, pijamas. 
Pijama, para Beppino, era o clímax da elegância. No seu cortiço havia apenas um, velho e sem bolso, propriedade de segundo-sargento da Força, reformado. 
Os minutos corriam. 
- Depressa, que eu tenho de fazer outras compras. Tem roupa feita? 
- Não. 
- Então embrulhe, que eu tenho de sair. 
- Mandar pra onde? 
Beppino ia da o endereço de casa. Nisso lembrou-se de que, se fizesse, a família descobriria, a velha mãe exigiria o dinheiro, ia ser o diabo. Resolveu rapido:
- Eu vou pegar um carro. 
Correu ao ponto, perto do salão - era ali mesmo - contratou um chofer, recolheu os pacotes. 
- Onde é que tem roupa feita? - perguntou ele como um náufrago, vendo os minutos fugirem. 
O caixeiro indicou, Beppino pagou, a correr, com uma nota graúda, desprezando a miuçalha dos níqueis, que a garota da caixa ficaria juntando, e correu para o outro magazine, ali perto. 
Foi tropeçando em gente, causou a mesma estranheza, venceu as mesmas resistências, enfarpelou-se. 

- Que bicho deu hoje? - perguntou, sorridente, o encarregado da seção. 
- O cavalo! - disse Beppino, com a sensação de posse, como se aquele animal abstrato tivesse uma existência real e lhe pertencesse, colocado à sua disposição para o resto da vida. 
Olhou vários modelos, escolheu três ternos. 
- É preciso ajustar primeiro. Quando quer que mande entregar? 
- Eu preciso deles agora..  
- Mas ainda não assentam bem... 
- Não faz mal... - disse Beppino, espantado com tais luxos. 
O caixeiro insistiu, Beppino concordou em levar só um, ficando os outros para o dia seguinte. E, ali mesmo, vestiu por cima da camisa imunda o terno berrante mente xadrezado. Saiu com o cerrar das portas, ganhou o carro, sem saber para onde. Para casa, já decidirá não ir. Gastará quase um conto e quinhentos, tinha um guarda-roupas de príncipe. 
- Vou para um hotel!...
Mandou subir a Avenida São João, parou, sem coragem, diante de vários hotéis grandes, acabou resolvendo abrigar-se num hotelzinho sem aparato da Rua Mauá. A meio caminho, lembrou-se de que devia avisar a mãe. Senão, ela ficaria assustada. Tocou o carro para o Bom Retiro, deixou-o na esquina, entrou no cortiço.
D. Assunta estava soprando carvão no fogareiro de lata de querosene.
- Mãe, eu vou num baile na Penha. Não me espere.
Acostumada com a meia independência daquele filho que vivia do próprio trabalho, a velha não se voltou. 
- Não volte tarde... 
- Eu durmo lá, na casa de Luigi. 
D. Assunta voltou, para um conselho qualquer. Arregalou os olhos. 
Beppino estremeceu valendo-se na roupa nova. 
- O que é isso? 
- Eu... Eu ganhei no bicho... 
- Mascalzone! Então você se deixa ganhá no bicho e mangia o dinheiro... Ganhou quanto? 
Beppino vacilou. 
- Tre... Trezentos... 
- É se deixou gastá tutto na-a roupa!
- Não. Custou cem... 
Dona Assunta queixou-se da ingratidão do filho. Ela se matando, ele caindo na farra. Exigiu o dinheiro. Beppino teve a sorte de meter a mão no bolso e titar pouco menos de 200$000. 
Passou-os à velha. 
- Você vai no baile? 
- Vou. 
- Leva dez mil-réis pra você, vá... 
Numa superexcitação, febril, achando o quarto suntoso (um hotelzinho de 5$000 a diária), Beppino lavou-se, mudou de roupa.
- O senhor quer jantar já? 
- Não. Janto na cidade. 
Tomou o carro, que o esperava à porta. Taxímetro, mais de 50. O chofer já estava assustado. Beppino pagou, xingando, desceu de novo na Avenida São João, deslumbrante de luzes, como um triunfado. Tinha, pela primeira vez, a sensação de que podia possuir tudo, de que a vida estava às suas ordens, à venda. Passou um sujeito importante. Teve ímpetos de dar-lhe um bofetão. Se ele se zangasse, tapava-lhe a boca com uma nota de cem. Ele agora estava de cima! Nisso, passou diante de um restaurante de luxo, onde uma noite vira entrar o Camisa de Seda. 
Quis entrar, não se atreveu. Acabou entrando numa churrascaria modesta, que a fome apertava, escolheu um prato, pediu vinho. Tinha vontade de pedir todos os pratos e vinhos da lista, comer e beber como um bruto, cair para ali esparramado como aquele português barrigudo, que nunca dava mais de um tostão de gorjeta, mas tinha dinheiro até para emprestar ao governo. 
Veio o prato, não gostou, virou o resto do vinho, saiu leve e alegre para a rua. 
- O que eu quero é gozar! 
Sentiu estar sozinho. Via apenas caras desconhecidas. Que penas estar o comércio fechado! Queria comprar tanta coisa! 
Passaram duas mulheres flamantes. Meio atrapalhado com o charuto, plenamente feliz, Beppino dirigiu-lhes um gracejo audacioso, sem o tom de cachorrinho que late para o automóvel, sem esperança, dos outros tempos. Agora podia pagar... E que vontade de dar uma palmadinha na barriga. 
- Aí, sua vaca! 

Acordou pelas dez horas, no dia seguinte. Espantou-se, ao despertar no ambiente estranho do modesto hotelzinho. Mas, quando recordou sua nova situação, pulou da cama, com a avidez de quem precisa aproveitar a vida. 
Lavou o rosto, esfregou melhor as mãos  ainda enegrecisas de graxa, tendo pedido gasolina ao camareiro, tomou carro para o centro. Primeiro foi dar o novo endereço para a remessa dos ternos. Estava com fome. Tinha de comer alguma coisa. Mas antes quis ir ao engraxate, ao negrinho da véspera. Correu então a uma casa de calçados, comprou um sapatão de sola grossa, igual ao do Camisa de Seda. Dirigiu-se depois, dono do mundo, para o Salão Primor. Já na porta, voltou, comprou ao lado um charuto baiano, foi abafar o colega. 
Por sorte, vagava naquele momento a cadeira do pretinho. E Beppino teve o gosto de ouvir três vezes que o convidavam - Graxá - inclusive a do negro, que não o reconhecera no primeiro momento. 
Não foi com o pretinho. Ele queria o gosto de poder escolher. Pra machucar. Sentou-se na cairá ao lado e estendeu os pés pesados a um rapazinho desdentado e sorridentes. E fingiu que não era com ele quando, ódio mortal no coração, ouviu aquele tiziu ordinário dizer a um dos companheiros: 
- Ontem deu cavalo, não foi? Hoje dá o burro... Vou arriscar "Des tão"... Tô com um palpite desgrenhado... 

Passou o dia comprando. Um relógio de 300. Uma chalaine de cinco, pesada e vistosa. Uma bengala. Miudezas. Ficou depois correndo o Trinângulo, olhando as vitrinas, porque não conseguia lembrar-se das outras coisas que desejava possuir, a ver se descobria mais alguma coisa que donhara noutros tempos. Agora podia possuir tudo. 
- Oh! diabo! E eu se deixei esquecer! 
Entrou numa loja de calçados e mandou vir uma polaina. Só não comprou luva porque achou demais. A cada passo entrava numa confeitaria e pedia a empada mais cara e a cozinha mais gordurosa. E na ânsia de gozar, de passar vida de lorde, tomava o primeiro carro indo fazer a Avenida Paulista ou a Avenida Brasil, delibando a visão dos bairros aristocráticos, palacetes com jardim, como se tudo lhe pertencesse. Certa vez, ao apanhar o carro na Praça do Correio... 
- Pará onde? 
- Por aí...
O chofer enveredou justamente pela rua em que ficava o Salão. Um sentimento de vergonha o invadiu. Encolheu-se todo. 
- Chispe! 
E só respirou livremente vários quarteirões além. Um
sentimento de remorso o machucava. Sentia que fora desleal com os companheiros. Não dera satisfação. Não pagará uma cervejada, como fizera o próprio Luigi, que tinha família, quando ganhara na centena da vaca, o ano passado. E fora apenas 600 "paus"! Agora não tinha jeito de voltar. Sabia que lhe cairiam na cola. Que seria recebido com insultos e vaias. E o que mais doía era aquela certeza interior: teria que voltar. 
- Será que Mastruccio me recebe? 
E se ele voltasse para propor sociedade? Percorria agora o asfalto macio de rua de residências lindas, no Jardim América. O velho Mastruccio andava falando em aumentar dua cadeiras no salão e tomar novos auxiliares. Ele podia associar-se, entrando com as cadeiras. Passaria a semipatrão. 
Mas estava no Jardim América. O carro deslizava com mais suavidade que o pano de lustrar na biqueira do Camisa de Seda. Como seria que aquele desgraçado conseguira ficar tão rico? Teve-lhe ódio, pela primeira vez. Antes era sua maior admiração, sua maior simpatia. Mas o jeito calmo, seguro e sorridente, do Camisa de Seda, maltratava-o, agora. A solidez do Camisa de Seda, na vida, contrastava com a insegurança da sua fugitiva felicidade. Estava mergulhado na fofice gostosa daquele Buick majestoso. Logo estaria a pé. O dinheiro andava no fim. restavam centenas de mil-réis. Só em automóvel gastará seus trezentos mangos, por que nunca se lembrava de tomar o carro à hora. Só exigia a tabela de hora quando o taxímetro lá pelos 30 "paus". Enquanto isso, o Camisa de Seda tinha carro para toda a vida. Mudava de modelo todos os anos. Tinha charutos e roupas caras. E quando topava algum amigo, na cadeira ao lado, só falava em contos de réis e nomes de francesas. Aquilo que era vida! Assaltou-o uma impressão de naufrágio, de desespero. 
- Pára o carro! 
O chofer brecou, bruscamente. 
- Quanto é? 
- Trinta e cinco. 
"Sujeito ladrão!", pensou. 
Mas pagou, sem protesto. O carro partiu. Beppino. Ficou olhando, atoleimado, as casas bonitas da rua, não sabia qual. Estava no Jardim América ou em Vila Pompéia, não tinha noção. Sentiu um profundo isolamento. Sozinho na vida. Com a velha mãe, nada em comum. Com os irmãos menores, menos ainda. Seus verdadeiros companheiros estavam no Salão. Era o Luigi. Era o Estafano, apesar de mais velho. Era o próprio Mastruccio, engraxate havia quarenta anos, esperando só uma nova cadeira para admitir um neto como aprendiz. 
- O que V. Pensa? O pequeno té getto! Tuttus domingo ele apita uma caixa e sai na rua, afazendo us biscate! Aquilo vai dá uno engraxate de priméra! 
Pôs-se a andar sem destino, sem saber se caminhava para o centro ou para os bairros. Nisso, passou um carro bege, vistoso e novo, guiado por uma garota de claro. 
Beppino sentiu a forte humilhação. Ele, homem a pé. Ela, o sexo inferior, guiando um automóvel. Homem, não o irritava tanto. Mas desde muito cedo se habituara ao sentimento de revolta que lhe inspiravam as mulheres da alta, aquelas "granfas" ociosas, que passavam, elegantes, dentro dessa manifestação tão masculina de vida, que era dirigir. Olhou par aos lados, buscando um táxi. Fez um sinal para um. Estava ocupado. O chofer nem respondeu. Mais dois quarteirões, encontrou vários carros numa esquina. Escolheu o melhor carro. Entrou.
- Aonde vamos? 
- Por aí  à hora. 
O chofer olhou-o com aquela estranheza ofensiva que desde a véspera o perseguia. 
- Pode tocar. Eu pago! Não tenha medo! 
- Pelo bairro? 
- Pro Jardim América. 
- É onde estamos. 
- Quero dizer, pra Vila Pompéia. Pode ir devagar... 
Fez a Avenida Branca, palmilhou, Vila Pompéia, acabou participando do corso de fim de tarde na Avenida Brasil. 

Havia telefonado para o armazém de "seu" Januário, na esquina, mandando avisar D. Assunta para que não esperasse. Dormiria outra vez, na Penha, em casa do Luigi. O Luigi tinha uma cunhadinha bonita. D. Assunta, que já assuntara um começo de namoro entre os dois não estranharia. 

Estava agora, outra vez, na Avenida São João. Esmagava-o de novo, insistente e feroz, aquela impressão de solitude. Nunca se sentirá tão só, tão à margem da vida. Os homens passavam, as mulheres passavam, os carros passavam. Luzes, vozes, claxon. Ele, isolado. Ah! se encontrasse uma voz amiga, um companheiro! Alguém com quem desabafar, com quem gastar as últimas centenas de mil-réis. Nem sabia compreender como gastara tanto, como pusera tanto dinheiro fora. Com aquele saldo nada poderia fazer. Nem estabelecer-se, nem associar-se com Mastruccio, nem fazer coisa alguma. Estava no fim. Oh! se encontrasse um companheiro! Notava que até aquele momento não tivera com quem falar. Não trocara idéias, fechado no seu egoísmo, na febre de gozar, de possuir, no temor de ser roubado. Compreendeu que errara, que fora mau. Só pensara em si. Para a própria família dera apenas sem querer uma pequena parte. E D. Assunta ainda lhe devolvera um pouco. Ficou envergonhado, àquela recordação. 
- Se deixo sê um bandido! 
Parou numa esquina, apinhada de gente. Artistas de rádio, músicos vagabundos. Um deles cantarolava:
"A coisa melhor deste mundo
É a orgia,
Orgia e nada mais..."

Sentiu-se reconforto, alegre e viril. Entrou num bar. Pediu um guaraná. Achou ridículo, mandou vir um chopp. Mas não gostava de chopp. Aquilo era amargo e enjoativo. Felizmente viera um chopp simples. Consertou o estômago com um café, saiu para a avenida, outra vez tremendamente só entre luzes que ofuscaram e homens que riam alto. Ah! se encontrasse um companheiro!

E nem de propósito. Lá ia, na outra calçada o Luigi. Seu primeiro impulso foi atravessar a rua. Mas conteve-se. Teria que explicar, teria que responder a perguntas, ouviria acusações. E mais ainda: seria escarnecido. Já antevia a risad larga e sem dentes do Luigi:
- Oba! Você virou grã-fino, heim?
Não sabia como, ele se afastava, se distanciava, dos companheiros. Naquele momento, nada tinha em comum com o Luigi. Precisava tanto de um companheiro, de um confidente, não conseguia. Pensou, como um refúgio, na outra classe. Ah! se encontrasse algum freguês! Alguém que o acompanhasse, que lhe contasse coisas, que o levasse a lugares desconhecidos, a algum cabaré, onde não se atrevia entrar sozinho. Ele agora estava no trinque, de camisa de seda e sapatão de sola grossa, relógio e dinheiro no bolso. Parou à porta de um bar. Numa das primeiras mesas, um agênciador de anúncios, com escritório perto do salão. Ia falar com ele. Entrou, como por acaso, encarou o rapaz, sorriu, cumprimentou. O outro custou a reconhecê-lo. Afinal, agitou a mão indiferente, no ar, preocupado com o jornaleiro que entrava.

Beppino sentou-se então à primeira mesa. Coração cheio de fel, alma trabalhada por infinita amargura. O garção veio, parou junto à mesa, esfregando o pano molhado no mármore. Disse qualquer coisa.
- Heim? - perguntou Beppino, longe da vida.
- Que é que vai tomar?
- Qualquer coisa.
- Café?
- Pode ser...
- Café, segunda ao centro - gritou o garção.
Aquela voz parecia vir de longe e ir para longe. Alguém veio fez um ruído perto, afastou-se. Tomou o café como se fosse um terceiro. Tudo parecia tão distante, tão destacado, tão sem sentido, tão sem cor. D. Assunta, Luigi, o salão, o Camisa de Sede... Levantou-se como um sonâmbulo. Ia andar. Andar sem destino. Andar pela noite a dentro. Andar pela vida fora. Estava sozinho. Sozinho.
- Uei! Coisa!
A mão do garção reteve-o pelo braço.
- Querendo ver se não pagava, Heim, seu pirata?

Fim.

Comentários: o autor mostra uma dura realidade que de muitas pessoas vivem. Ganham vultuosas quantias de dinheiro e acabam dilapidando rapidamente o montante. Essa temática é bastante frequente aqui no Sou Poupador, pois como a maioria de vocês já sabem, nosso objetivo é "conscientizar as pessoas sobre os benefícios de viver uma vida financeiramente equilibrada, de forma que o dinheiro traga mais alegria e abundância para todos". Além de gastar rapidamente tudo que ganhou, o personagem revela o lado ambicioso, preconceituoso e egoísta das pessoas. E aí, o que você sentiu ao ler o texto? Achou bacana a história?! O que você faria se ganhasse uma fortuna na loteria? 

Para quem gostou do conto de Orígenes Lessa, existem alguns livros do mesmo autor disponíveis na Amazon com mais textos dele, como por exemplo: O Feijão e o Sonho, Recordações do escrivão Isaías Caminha, Confissões de um Vira-lata e Memórias de Um Cabo de Vassoura. Para conhecer a lista completa é só acessar aqui. Outra dica é a Coleção com os melhores contos dele disponível aqui: Orígenes Lessa - Coleção Melhores Contos da Editora Global.


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